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Saúde Pública

Dia Mundial do Câncer 2015

Por Dra. Vera Luiza da Costa e Silva, chefe do secretariado da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da ONU

Houve um tempo, não muito distante, em que fumar estava na moda.

Anúncios que celebravam o hábito de fumar eram comuns nos canais de televisão, outdoors e revistas. Eventos esportivos e shows eram lugares considerados pela indústria do tabaco uma forma de divulgação de seus produtos.

E todo mundo, desde o seu pai até o seu médico, fumava em tudo que é lugar – carros, elevadores, restaurantes, casas e até hospitais.

Isso era 1980. A mesma época em que comecei a tratar pacientes com câncer pulmonar no Instituto Nacional do Câncer (Inca), e senti na pele o impacto do tabagismo. Durante os 6 anos que estive por lá vi muitos pacientes perderem suas vidas, geralmente dentro de 2 anos após o diagnóstico.

vera luizaEu também perdi a minha mãe para o câncer. Alguns anos mais tarde, meu pai morreu da mesma doença. Ambos foram expostos ao cigarro. Meu pai era fumante e minha mãe, durante anos, foi fumante passiva.

Consequentemente, eu senti a necessidade de evitar o câncer através do combate específico ao seu maior fator de risco: o tabaco.

Dia Mundial do Câncer

O Dia Mundial do Câncer é um dia para lembrar que o tabaco é a maior causa isolada de câncer no mundo, e a principal causa de mortes preveníveis. A cada ano, 8,2 milhões de pessoas morrem de câncer; pelo menos 1,6 milhões (20%) dessas mortes estão relacionadas ao tabaco. Ao todo, mais de 6 milhões de pessoas vão morrer este ano de doenças relacionadas ao tabaco, tais como doenças cardiovasculares, doenças crônicas pulmonares e câncer.

Comemoração dos 10 anos de controle do tabaco

No fim deste mês, vamos comemorar o 10º aniversário da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da ONU (CQCT), o primeiro tratado intergovernamental dedicado a mudar drasticamente o controle do tabaco ao redor do mundo. Em vigor desde fevereiro de 2005, a CQCT estabelece uma série de medidas que visam os perigos do tabaco e limitações ao seu uso sob qualquer forma no mundo todo.

Em 10 anos, a CQCT se tornou um dos tratados mais ratificados na história das Nações Unidas. Seus 180 Estados Partes representam 90% da população mundial.

Atualmente, 80% dos países que ratificaram a convenção adotaram novas leis ou fortaleceram leis anteriores de controle do tabaco. O preço médio de um maço de cigarro aumentou quase 150 nos últimos 5 anos, e muitos países exigem que fotos de advertência cubram, pelo menos, 75% a 85% do espaço das embalagens de cigarro.

O banimento do cigarro tanto de áreas fechadas quanto de espaços públicos já foi adotado por 48 países, quase dez vezes mais em relação a 2005. Os espaços públicos, como praias e parques, já começaram a ficar livres do cigarro. Além disso, existem muitos países decididos a se livrar do cigarro ou que têm menos de 5% de fumantes entre a população.

Uma sociedade livre do cigarro

O mundo está bem diferente do que na época em que trabalhei no Hospital do Câncer, na década de 1980.

Fumar já não é mais um comportamento socialmente aceitável, e está banido em muitos lugares. Informações de saúde pública sobre os perigos do cigarro estão por toda a parte. E os países estão se unindo contra os avanços da indústria do tabaco de forma a proteger seus cidadãos.

O 10º aniversário da CQCT mostra como ações coordenadas a nível nacional e internacional podem “desnormalizar” um fator de risco e obter avanços na agenda da saúde. A convenção demonstra que a saúde é seguramente capaz de convencer outros setores a se engajar, através de tributos, fotos de advertência, leis e proibições de publicidade para salvar vidas.

Mas a guerra ao tabaco ainda não terminou. Ainda se espera que 8 milhões de pessoas morram a cada ano até 2030, vítimas da fumaça do cigarro. A utilização de produtos alternativos, como narguilé e cigarros eletrônicos estão se tornando cada vez mais populares e também deverão ser alvo de controle. O tráfico de cigarros ainda é responsável por 1 em cada 10 cigarros consumidos no mundo.

Para evitar isso, devemos nos unir contra a indústria do tabaco. As empresas deste ramo desafiam continuamente as medidas regulatórias que os governos adotam para proteger nossos filhos e netos do tabagismo e ainda gastam bilhões de dólares todos os anos com publicidade, promoção e patrocínio de derivados do tabaco.

As mortes por câncer em decorrência do tabaco podem ser evitadas. As mortes prematuras causadas pelo tabaco podem ser reduzidas. No Dia Mundial do Câncer, devemos nos comprometer a reduzir ainda mais o consumo de tabaco para que um mundo livre do tabaco se torne uma realidade.

Reproduzido de “Tobacco: Ending an unhealthy trend” – OMS, 04 de fevereiro de 2015.

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